362– O voluntariado brasileiro em debate: altruísmo ou interesse velado?
O voluntariado no Brasil sempre teve destaque, em alguns momentos mais outros menos, com milhões de pessoas dedicando tempo e energia a causas sociais, ambientais e humanitárias. De acordo com o IBGE (2022), cerca de 7% da população brasileira já se envolveu em alguma atividade voluntária. No entanto, por trás do ideal de solidariedade, um debate polêmico tem emergido: até que ponto o voluntariado é genuinamente altruísta, ou seria, em muitos casos, uma ferramenta de autopromoção, interesse econômico ou até mesmo exploração?
De um lado, defensores do voluntariado, eu sou um deles, mas não sou cego de paixão, destacam seu papel essencial na construção de uma sociedade mais empática. Em um país marcado por desigualdades históricas, como o Brasil, iniciativas voluntárias têm suprido lacunas deixadas pelo poder público, seja na educação, na saúde ou no combate à pobreza. Projetos como os mutirões de construção de casas em comunidades carentes ou a distribuição de alimentos durante a pandemia são exemplos frequentemente citados como prova do impacto positivo dessa prática.
Por outro lado, críticas crescentes apontam para os “lados sombrios” do voluntariado. Há quem questione a real intenção de algumas organizações e indivíduos. ONGs que cobram altas taxas de participação em programas voluntários, especialmente aqueles voltados para estrangeiros — o chamado “volunturismo”, têm sido acusadas de lucrar às custas de populações vulneráveis, oferecendo uma experiência superficial em troca de currículos mais atraentes. Além disso, empresas e figuras públicas que utilizam o voluntariado como marketing pessoal ou corporativo levantam suspeitas sobre a autenticidade de suas ações.
Outro ponto de tensão é a precarização do trabalho. Especialistas alertam que, em alguns setores, o voluntariado pode ser uma forma de substituir mão de obra remunerada, especialmente em tempos de crise econômica. O voluntário não pode ser uma solução para a falta de políticas públicas ou de contratações dignas, mas pode ser um auxílio. A dependência exclusiva do trabalho voluntário pode mascarar problemas estruturais, adiando soluções efetivas.
Diante desse cenário, o voluntariado brasileiro se encontra em uma encruzilhada. Se por um lado ele reflete o melhor da solidariedade humana, por outro expõe contradições que desafiam suas intenções. A sociedade, agora, é chamada a refletir: como garantir que o ato de ajudar não se torne um fim em si mesmo, mas um meio para transformações reais e duradouras? O debate está sempre aberto, e pode ser a grande saída para estes questionamentos, a aproximação de empresas, organizações sociais, voluntários e governo, para uma troca saudável, sem imposições ruidosas, sem o partidarismo político que permeia e atrasa nossas organizações. Esta é uma das respostas, com certeza existem outras que devemos tentar.
Roberto Ravagnani é palestrante, jornalista (MTB 0084753/SP), radialista (DRT 22.201), Consultor especialista em voluntariado, ESG e responsabilidade social empresarial. Voluntário palhaço hospitalar, Conselheiro Diretor da Rede Filantropia, CEO da empresa de consultoria R. R. Desenvolvimento e Transformação Humana LTDA e do VOL, porta voz pela ONU, Associado da VRS Consult da Guatemala, prof. de Voluntariado da PADLA University- México e Único Brasileiro Consultor acreditado internacionalmente por Empresability . @roberto.ravagnani